Senti que Monica estava inquieta. Seus pés davam a impressão de estarem brigando com o chão, fazendo suas pernas balançarem de modo que seu corpo cambaleava de um lado para o outro.
Olhei para a direção onde os olhos de Monica estavam e entendi o motivo para tanto remelexo. Jorge estava parado bem a nossa frente, apenas a alguns metros de distancia. Ele estava escorado na parede ao lado do bebedouro, com os olhos fechados e fones de ouvido ligados.
- Monica, pelo menos disfarce. Daqui a pouco, as pessoas vão notar. –Sussurrei perto de seu ouvido, puxando seu corpo para perto de mim.
- Você acha? – soltou entre dentes – Ah, eu nem olho tanto. – ela deu de ombros.
- Olhar você realmente não olha. Mas você esquece que deixa seus olhos na direção dele quando fica com uma cara de idiota, pensando nele. – sorri sarcasticamente para ela.
Monica abriu a boca para discordar dramaticamente, quando o som forte e abafado do sinal tocou em nossos ouvidos. Antes que Monica me puxasse, me virei para dar minha ultima golada de água. Na direção de Jorge, vi que ele se virou rapidamente, tirando os fones do ouvido e saiu andando em direção a sala.
- Você não se envergonha de gostar dele quando está quase casada com o Miguel? – Perguntei gesticulando com a boca, quase sem som. – Sabe... Cinco meses de namoro, já é um tempo comprometedor. – terminei sorrindo.
Monica olhou com uma cara irônica engraçada. Segurei o riso.
-Meg, diga-me o que estou fazendo de errado? – soltou junto com uma boa respirada – O fato de eu desejar o Jorge não significa que eu iria ser infiel com Miguel. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.
- Como não? – discordei em primeiro momento - Você está com o Miguel, mas quando vê o Jorge, não se agüenta quieta.
- Vou te dar um exemplo. – Monica começou a gesticular com as mãos, enquanto pegávamos o rumo da sala de inglês. - Primeiro: Miguel é homem, não é? Ele tem direito de olhar para outra mulher e achá-la bonita, não tem? E nem por isso deixaria de ser humano ou seria alguém sujo ou criminoso, concorda?
- Sim. Perfeitamente normal. – concordei.
- E isso não afetaria nada com o sentimento que ele sente por mim, certo?
- Sim. Não vejo problema. – concordei novamente.-Justamente. Estou na mesma situação. – Monica suspirou aliviada. – Ou você acha que eu amo o Jorge? Ou que estou apaixonada por ele? – senti que Monica sentia nojo das palavras enquanto as falava, como se estivesse zombando de si mesmas. Ri daquilo. – Ah, por favor, Monica. Eu não tenho culpa se meu corpo não agüenta quando vê o Jorge. Ele é lindo demais. E é charmoso. E fica super lindo quando fica quieto na cadeira, concentrado. E fica mais lindo ainda quando ta sorrindo com os amigos. Ou quando está dormindo na aula de história...
Minha risada interrompeu os desejos secretos de Monica.
- Sim, é muita tentação, eu sei. – Ri novamente.
Monica me olhou ironicamente como se quisesse sentir culpa, mas não conseguia. Puxei seu corpo pelos braços, enquanto entravamos na sala de inglês.
- Mas isso é só físico e não me compromete em nada, ora. – esclareceu por fim, sussurrando enquanto entravamos na sala. Dei um ultimo sorriso incorreto e sentei-me em meu lugar.